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Maniva (2006)

TEXTO ENCARTE

NILSON CHAVES, amigo-irmão mui querido, companheiro intimorato de não poucas batalhas, batalhas sim, pois que fazer arte aqui, de há muito e só Deus sabe até quando, ó luta inglória, pede-me e um pedido seu, por menor que seja, para mim uma ordem, tais e tamanhos nossa velha amizade e o respeito e a admiração que, desde sempre, nutro por sua pessoa e por sua música - umas palavrinhas de abertura de seu filho mais novo, este CD que ora está vindo à luz.

Devo esclarecer que não se trata, aqui, ó não, - nem poderia de jeito nenhum - de uma apresentação. Primeiro, porque no meu entender, o apresentador deve estar acima do apresentado, ou ser mais conhecido que ele, o que, em sa consciência, não é o meu caso. Segundo, porque Nilson é dessas pessoas que, sendo como o sol, que, manhãzinha, inda nem surgiu no horizonte e eis no céu seu inigualável revérbero e, à tardinha, ao ser ir, deixa empós um show de refulgência, dispensam apresentações, auto-apresentam-se com a maior autoridade.

Nem, tampouco, de uma apreciação crítica, ainda que breve e superficial, correria o risco de ouvir, de algum entendido, censura igual, se não pior, à de apeles ao sapateiro que, perguntado sobre o que achava do calçado da figura de uma de suas telas, aventurou-se a criticar-lhe outras partes: "não vá a ao sapateiro além das sandálias".

Muito menos é meu intuito dar a conhecer o número, as parcerias, os temas e os gêneros das composições nele enfeixadas, para não privar os adquirentes, que desejo incontável, de prazer direito seu da descoberta pessoal.

Pretendo então o quê, com estes rabiscos?

Pura e simplesmente, externar, alto e bom som, meu contentamento, por mais esta explosão de criatividade do Nilson e de seus parceiros, tudo gente boa, da pesada, graças a qual quem mais sai lucrando somos nós, seu imenso público, que nos enriquecemos de poesia, de música da melhor qualidade, de alegria, de prazer, de emoções, de brasilidade, de paraensismo.

Depois, parabenizar efusivamente quer os pais da criança que já nasceu adulta, quer os felizardos, como eu, que a curtirão.

Enfim, agradecer, quer a Deus, por ter dotado o Nilson de tanto talento, quer o próprio, por ter sabido utilizá-lo.

Maniva, pra quem não sabe, é uma planta nossa, leitosa, cujos tubérculos, ricos em amido, são de largo usos na alimentação, sendo que algumas de suas espécies, venenosas, servem para o fabrico de nossa tão apreciada farinha de mesa.

Maniva: título mais que acertado para este CD. Pois que seu conteúdo, se, por um lado, alimenta e como! nossa fome de beleza e de emoções, por outro, ó que veneno contra a tristeza e o baixo astral!

Frutas, sabemo-lo, não há, nenhures, como as desta grão-pará: variadíssimas, cada qual mais saborosa, de dar água na boca, algumas, até perfumadas como o cupuaçu. Pois assim, sem exagero, as músicas deste CD. Tanto que qualquer que se escolha, é ganho.

Que estamos esperando? O petisco está aqui, à mão ou no prato, prontinho, convidativo, tentador. Desfrutemo-lo e bom apetite!

 

FICHA TÉCNICA

Gravado no Studio Apce Music, Belem/Pará (janeiro a março de 2005) por Assis Figueiredo e Júlio Cesar

Gravações Adicionais: Estúdios Wah-Wah e Saravá (São Paulo) por Evaldo Luna, Leonardo Nakabayashi e Paulo Lepetit

Assistente de Estúdio: Claudinei Monteiro

Edições: Evaldo Luna, Leonardo Nakabyashi e Zeca Baleiro

Mixado por Evaldo Luna e Leonardo Nakabayashi

Masterizado por Jade Pareira, no Classic Master (São Paulo) Arranjos e Direção Musical: Adelbert Cameiro

Produzido por Nilson Chaves e Zeca Baleiro

Co-Produzido por Evaldo Luna e Leonardo Nakabayashi

Produção Executiva e Coordenação: Nilson Chaves e Idan Góes Produção Fonográfica e Distribuição:Gravadora Dutros Brasis (Rosana Yentas)

Produção Geral: Olho de Boto Produções e Outros Brasis

Arte Gráfica e foto panela: Ruma

Foto capa: Edyr Augusto Foto verso contra-capa: Ednaldo

FAIXAS

 

1. Flor D’água

Praça da República
Praça Batista Campos
Nesses bancos
Sento sobre o meu passado

Praça da República
Praça Batista Campos
Nesses bancos
Sonho com minha Cidade

Imagem, preguiça
Mormaço, minha flor d'água
Paisagem bubuia
No tempo
Da minha flor d'água

Venha mestre Verequete
Teu foguete lançado no mar
Guamá, Guamá
Cupijó tá na proa contente
Seu setenta e Lucindo tão lá
Remar, remar
Eu mergulho no rio da m'ia gente
Desafogo e me dano a cantar


2. Canção Brasileira

Não tem feijão vai pão com rapadura
Muita mistura envenena o coração
Meu par de sete vira
Um full han de figura
Quem em noite escura
Vaga lume é lampião.

Sol na moleira vida regateira
Sem eira nem beira
Põe madeira pra lumiar essa fogueira
Mulher rendeira
Da minha canção brasileira...

A carne é fraca e cheia de nervura
Se depender da dentadura fica ruim
A água é mole, mais a vida é dura
E tanto bate até que fura o mocassim.

Sol na moleira...

Nem um troco no bolso
E vamo que vamo
vai que Deus é fatal
Que nem Nostradamus

E já que aqui tudo é índio
Pra americano
Eu sou cacique de ramos
pé de valsa arrasa um terreiro
Não vim num avião negreiro
Não peguei a embocadura.

Dizer que a vida é um anjo de candura
Não adianta disfarçar que ela não é
Também não sou nenhuma formosura
Pintou frescura eu mando logo um buscapé

Sol na moleira...

Não casei com azar
Nem dei sorte grande
Nunca usei força bruta nem dei vexame
Eu não sou filho de Jean C. Van Dame
Eu sou dos filhos de Gandhi
Com 40 graus até no outono
Era pra só viver no sono
Mas deitar me dá tontura

Não tem pro chopp bota branca pura
bate primeiro e bota fogo no gogó
Quem vem comigo também se segura
Quem vive mal acompanhado morre só

Sol na moleira..

 

3. Meu Lundú

Minha lua cheia vou pousar no meu olhar
Eu sou o rio da tua noite a desaguar
Na tua boca encantada e no teu mar
Vou navegando e o teu sonho é meu luar
Tantas estrelas luminando tanto amor
Por Deus o céu eu sou

Quando o dia vem tú és o meu alvorecer
Meu corpo queima com o sol do teu prazer
Me faz moleque na tua imaginação
Eu sou teu rei no reino dessa sedução
Eu de bubuia no teu corpo lindo e nú
Tu és o meu lundú
És o meu lundú...

Linda, lua, luz
Vem me enfeitiçar
Bela, lua, luz
Vem me namorar...(refrão)

És o meu lundú...

4. Você Me Guia

Eu almoço você
Você me janta
Eu adoro avião
Voce me lancha.
Eu toco você
Você me canta...
Você faz o show
Eu dou uma canja
Eu componho você
Você me arranja
Eu perco você
Você me Ganha..
Dasarrumo você
Você me apronta
Entro no seu balé
Você na ponta
Eu curto você
Você me alonga
Eu agarro você
Você me lança
Eu escrevo você
Voce me dança
Você me trança
Você me cansa de prazer

NA MINHA CIDADE
TEM UM RIO, TEM UMA BAÍA
NAVEGO VOCÊ
VOCÊ ME GUIA...(BIS)

 

5. Cantador Aluado

Cantador aluado extra terrestre
Sabedor dos segredos milenares
Viajei pela terra e pelos mares
sou centauro do mar e do agreste
Com a coragem de bons cabras da peste
Tenho o dom do profano e do sagrado
Na galera de Deus sou respeitado
Por cantar tão antigos sons eternos
Prateando os sertões fazendo invernos
Nos dez pés de martelo agalopado.

Sigo a estrela que toca minha lira
As visões refletidas num lampejo
As diversas versões de um só desejo
Cada um sabe o sonho que lhe inspira
Nostradamus o profeta não previra
Cantador quanto canta alumiado
Sua nave encandeia a todo lado
Com requebros de Elvis num rompante
A platéia lhe aplaude delirante (nos dez pés...)

Se maior é o arpejo da pureza
Do Dalai no seu mantra pelo mundo
A ternura de um Chaplim vagabundo
Digo a todos em alfa com firmeza
Sabe mais do que nós a natureza
Que o poeta em seu verso inspirado
Não carece discurso ou leriado
Os arcanos confirmam sobre a mesa
Que a essência da arte é a beleza (nos dez pés..)

Instalado entre luzes no terreiro
Quero aqui fazer esta homenagem
As cabeças cortadas são visagens
Virgolino está vivo todo inteiro
No arruado do céu ele é porteiro
Como todo o anjo mal aposentado
Diz que foi nessa vida injustiçado
Lampião foi um dia um bom menino
Como tantos famintos nordestinos (nos dez pés)

Qundo canto do mistério a profundeza
Cesse tudo que a razão me alumie
Amo a luta do povo e a alegria
A força do amor sempre é riqueza
Para vencer os vikings e a tristeza
Não impoprta o presente ou o passado
Se todo meu canto já foi tomado
Por milhões de romeiros beradeiros
Pelo grito engasgado dos roceiros (nos dez pés..)

Lendo as linhas da vida há vidência
O improviso é um dom paranormal
Aderaldo para mim é genial
Pela luz que banhou sua existência
Fez do sol nordestino referência
Informática dos tempos digitados
E por isso reclamo ser lembrado
Como Beatles, Bethoven e Noel...
Para ele também tira o chapéu (nos dez pés)

Os meninos de rua são tocantes
Com seu cheiro de cola e gasolina
Mulheres são mortas nas esquinas
Pelo mal dos amargos enervantes
O poder das culturas dominantes
Poluindo o planeta baqueado
Extermínio de bebês já programados
Cucarachas são o lixo marginal
Dão suas vidas pela divida ancestral (nos dez pés)

Inimigo atento sempre alado
Paladino de araqué do oprimido
De país da liberdade travestido
Paraíso do mundo disfarçado
Quem entrar neste time tá ferrado
A charanga do céu toca um dobrado
Mas quem dança fica longe abirobado
Na toada, no xote ou no baião
Só pentágono para lhe dar indigestão (nos dez pés)

Chico mendes, Fonteles e Margarida,
Acordam do sono na floresta
Encontram o Brasil numa só festa
Num canto liberto pela vida
Monte santo era a terra prometida
Todo o povo feliz e bem forrado
Divididos na terra sem mandado
Todo o verde num branco santo dai-me
Nas manchetes do New York Time (nos dez pés)

 

6. Papoulas

Amor não se guarda em cofre
Embora seja riqueza
É graça de Santo Onofre
Gozo de Santa Tereza
De um coração que sofre
Como estancar a tristeza
Amor queima como enxofre
Faz da alma sua presa

Amor é chuva da tarde
Que cai e não diz a hora
Vulcão que não faz alarde
Casa onde a brasa mora

Amor é tambor na mata
Que ninguém toca e ressoa
É uma emoção barata
Que em qualquer canção ecoa
É um avião de lata
Que não devia, mas voa
Veneno mal que maltrata
Engorda mata enjoa

Amor é reisado triste
Um carimbo nas estrelas
Um fado que não existe
Papoulas pelas janelas

 

7. Carimbó Modernista

No núcleo do curimbó

Um ritmo pós-modernista

Um tecno carimbo

Com texto neo concretista

Água que move o nó

Antena (que nem) artista

Pound e cupijó                   
Com o mesmo ponto de vista                   
O digito, o banjo, o acorde              
As velas acesa no rio                  
No céu projetado o Concord            
O índio revendo o Brasil                
O negro educando o lorde        
O cheiro agre e sal do xibiu                
A arte gritando, acorde!              
-ETs escutando vinil
No núcleo do curimbó                  
Um ritmo intra-otimista            
Um tecno carimbó                    
Sai do tambor, vai pra pista        
Conexão igapó            
A uma nau futurista acima do Marajó                
A base do sonho nortista

8. Aurora

Aurora entrega

O cheiro das manhas

Ao dia ensolarado

Nos caminhos ziguezagueiam

Pelos rastros que lá deixei

Aurora seca o orvalho

Nos telhados das casas sonolentas

Nos caminhos que ziguezagueiam 

Lagrimas que la deixei

Aurora acorda o vento

Que assobia em silencio         (bis)

As canções que lá deixei…

Aurora com suas mãos

Perfumadas e macias

Me acompanham caladas

Na saudade de minha terra

E da mulher que lá deixei

A paixão que lá deixei…    (bis)

Nas canções.

 

9. Cabelo Açaizal

(Joãozinho Gomes, Nilson Chaves)

No céu a flecha passa sideral
Em alta freqüência supersônica
Contrasta com o camelo no Nepal
A áurica interprice amazônica
Há pouco um sujeito atonal
Compôs uma sonata pra sinfônica
Que se acoplará ao carnaval
De forma tão espírita e orgânica

Espana o céu cabelo-açaizal
Estrelas caem num rio de água tônica
As tribos se agrupam pro sarau
diante de uma evolução atômica
Aos olhos da desordem mundial
Um boto com sua gaita harmônica
Escreve um sirimbó universal
Em partitura de canção canônica

No céu a flecha passa sideral
Silêncio, pois Iara está afônica
O índio faz amor com a vestal
Atrás de uma cabine telefônica
Ao olho de um satélite atual
Conectado à rede esterofônica
Está aberto o site intertribal
Da verdejante órbita amazônica

10. Belém Beleza

(Não identificado)

Eu te olho assim tão bonita
Manga rosa no meu caminho
Bem-te-vi bem te quer também
Meu início e final de destino
Eu te olho assim tão brejeira
Pupunheira no meu caminho
Juruti juro te querer
Me banhando no teu cheirinho
No brilho da tua aurora
Me ponho a namorar
Teu sabor, tua luz, tua Lua
Dá vontade de cantar
Belém que arde nas manhãs
Belém que tarda tão faceira
Belém que sabe que na noite
Há sempre estrelas
Belém que arde nas manhãs
Belém que tarda tão faceira
Belém que sabe que na noite
Há sempre estrelas
No brilho da tua aurora
Me ponho a namorar
Teu sabor, tua luz, tua Lua
Dá vontade de cantar
Belém que arde nas manhãs
Belém que tarda tão faceira
Belém que sabe que na noite
Há sempre estrelas
Belém que arde nas manhãs
Belém que tarda tão faceira
Belém que sabe que na noite
Há sempre estrelas
Belém que arde nas manhãs
Belém que tarda tão faceira
Belém que sabe que na noite
Há sempre estrelas
Belém que arde nas manhãs
Belém que tarda tão faceira
Belém que sabe que na noite
Há sempre estrelas
Belém que arde nas manhãs
Belém que tarda tão faceira
Belém que sabe que na noite
Há sempre estrelas
Belém que arde nas manhãs
Belém que tarda tão faceira
Belém que sabe que na noite
Há sempre estrelas
Belém que arde nas manhãs

11. Sem Segredo

Ter amor é bom.

Se o amor é interno.

O amor é pra mim

Derradeiro e primeiro

O amor me faz bem.

Meu amor verdadeiro

Todo amor tem um cheiro.

Pelo amor eu te vejo

O mar do teu sonho

Nos meus olhos de rio           (bis)

Uma pororoca, uma pororoca,          (bis)

Uma pororoca 

No meu coração vadio

Coração vadio

Quando o amor nos tem,

Tem paixão, devaneios…

O amor é também

Um prazer com recheios

O amor é assim,

O amor não tem medo.

Querubim, meu jasmim

 É canção sem segredo.

 

O mar teus sonhos... (refrão)

 

12. Círio No Exílio

(Jamil Damous, Nilson Chaves)

Outubro, domingo
As folhas do outono caindo
No exílio de um país distante e frio
Me lembro que a essa hora
Vem vindo
Numa cidade longíqua do Brasil
Vem vindo
Vem vindo
A essa hora sob o sol do Equador
O andar, o andor, o ardor
De tanta gente
Na manhã quente
Tão diferente desta aqui

E sinto o frio
Como se estivesse ao sol daí
E como um hambúrguer
Com gosto de tucupi
E onde passas te saúdo
E aplaudo e é aqui
É mesmo por aqui
Que eu sei que passas
No asfalto negro da saudade
Nas avenidas de outra cidade
Eu sei que passas por aqui
Eu sei que passas por aqui

E vejo então que não te devo
A promessa que fiz
De estar aí em todo Círio
E ser feliz
Distante estou aqui
E hoje bem sei
Que não passas só em Belém
Passas aqui também
Passas por onde houver
Um filho teu
Todos os teus filhos
Os crentes e os ateus
Eu sei que passas por aqui
E quando passa
Que lindo

Senhora de Nazaré
Além de toda fé
Toda razão
Bem dentro do coração
Estás em mim e fim
Um sim dentro do não

 

13. Desassossego

(Nilson Chaves)

Quem te mandou me incendiar
De amor assim
Quem te enfiou nessa cabeça
Que amor tem fim
Quem sussurrou nosso destino
E se fini
Quem te diz vai me tirar
Do desassossego
Quem me diz vai me tirar
Do desassossego

Quem solfejou uma cantiga
E me ensinou sonhar
Cicatrizou nossas feridas
Aliviando a dor
Que por amor quase esquecido
Não se desesperou
Que me diz vem me tirar
Do desassossego
Quem me diz vem me tirar
Do desassossego

Iararará hey (Iararará hey)
Iararará hey (Iararará hey)

Quero sua risada mais gostosa.